O governo de Michel Temer premia a mídia nativa por sua notabilíssima contribuição ao êxito do golpe de 2016.
Tenho lido, aliás, da lavra até de praticantes do jornalismo honesto,
ou da boca de dignos cidadãos, que se trata de golpe parlamentar.
Permito-me observar que a definição é incorreta: parlamentar, sim, mas
também judicial, midiático e policial.
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| Foto: Carta Capital |
CartaCapital já passou por
situação similar durante o governo de Fernando Henrique Cardoso,
reputado até hoje democrático. No comando da estrutura chamada a
administrar a publicidade governista, Andrezinho Matarazzo esmerou-se ao
ignorar CartaCapital. Cheguei a ter saudades, então, ao menos deste ponto de vista, dos tempos da ditadura.
Democrático foi o comportamento dos governos Lula e Dilma,
que não esqueceram quem quer que seja. Por 14 anos a mídia foi de
oposição feroz ao governo, e dizer oposição é licença poética, porque
amiúde não hesitou, a bem dos seus propósitos sempre golpistas, em
omitir, inventar ou mentir para colocar Lula antes, Dilma depois, em
dificuldades aos olhos do público. Já estavam a ensaiar sua participação
decisiva no golpe de 2016.
Talvez surpresos pelo súbito comparecimento de publicidade governista nas páginas de CartaCapital,
diversos escribas a serviço da casa-grande deram para defini-la como
revista chapa-branca, embora houvesse publicações muito mais recheadas.
Tive de constatar, por exemplo, que a quinzenal Exame da Editora Abril, dedicada ao business, recebia mais publicidade governista do que a nossa semanal de política, economia e cultura.
Às vezes me ocorreu perguntar aos
meus intrigados botões se tanto Lula, quanto Dilma, não seriam
democratas demais no tratamento reservado a quem os denegria
sistematicamente. Responderam: “Cristãos”. De todo modo, de nada
adiantou oferecer a outra face e deu no que deu. Ou seja, neste Brasil
que finalmente chegou ao resumo de uma ópera de 500 anos.
O golpe precipitou o País em um beco sem saída, jamais
conheceu crise igual, política, econômica, social, moral e intelectual.
Institucional. O Estado está falido, os poderes da República não
existem, há uma destruição por dentro, uma implosão irreparável.
É como se o momento de caos absoluto condensasse toda a
prepotência, toda a irresponsabilidade, toda a insensibilidade, toda
insensatez, todos os desastres provocados pela inextinguível casa-grande
ao longo de 500 anos de história. Até a conciliação das elites
tornou-se instituição falida, os graúdos digladiam-se entre si em busca
de um prêmio impossível, o poder extinto pela total ausência de comando.
O Brasil é hoje o perfeito resultado do desmando secular. A
se olhar para trás, percebe-se que não poderia haver outro desfecho.
Nisso tudo, a perseguição de Michel Temer a CartaCapital é algo
de somenos, mesmo porque de figuras como o professor de Direito
Constitucional disposto a rasgar a Constituição por outros
comportamentos seria estulto esperar.
Este Texto é do Site Carta Capital

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